terça-feira, 19 de abril de 2011

Felicidade Extraviada


Naqueles instantes de menta, de mente, de lábios selados, mentiras mal feitas, amores mal contados...
Amigos esquecidos, lábios selados.
Naqueles instantes de felicidade extraviada, deixada como um pacote inesperado na porta de casa.
Os lábios valsando uma dança não ensaiada, se refugiando nos braços inexperientes do parceiro... Valsando uma música nunca ouvida antes.
Olhos fechados, braços dados, valsando nos cabelos cacheados, encaracolados em um labirinto, perdidos, valsando, dançando, pedindo, implorando por uma saída.
Valsando nos caracóis do seu cabelo. Em uma estrada infinita... As mãos mergulhadas nos seus cachos.
Uma lágrima de amor no canto do rosto. Um amor de instantes, de lábios que valsam, que dançam, que se perdem nos seus cabelos.
Um instante de felicidade extraviada...

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Labirinto de Espelhos


Nos teus olhos de labirintos de espelhos eu me perdi, e nos reflexos da tua alma eu vi a beleza dos teus pensamentos.
E eu vi o reflexo de teus prantos, de tuas dúvidas, das tuas paixões. Das tuas lágrimas prateadas.
Os teus olhos são de labirintos de espelhos, e por isso a facilidade de se perder neles. Fui de encontro a tua alma e me perdi nos teus olhos. Na floresta densa que se comprime na tua íris, eu me perdi tentando te encontrar; adentrei em uma aventura sem rumo e sem rota. Me confortei nos seus olhos cansados, corri pela floresta da tua íris.
Me perdi nos teus olhos de labirintos de espelhos.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Exército de Prata


Quebrou as correntes, quebrou os espelhos. Os olhos vermelhos, a fumaça no ar.
Ela era boa e sabia que era. Só que não o bastante. Ela aguentava muito, e sabia que aguentava. Só que não era o suficiente.
E chorava sem querer chorar quando a noite caía. E não conseguia fazer calar as vozes na sua mente.
A fumaça, os gritos, as correntes.
O perfume, as risadas, os carinhos.
Tinha medo de ir dormir por não saber o que lhe esperava ao acordar.
Sentia falta dos sonhos bons, amava o ódio que sentia pelo seu subconciente.
A fumaça, os gritos, as correntes.
Desejou calar as vozes pois cobiçava ouvir o soar dos sinos que anunciavam a chegada do exército de ouro. Mas ela era de prata.
Boa, mas nunca o bastante. As correntes, as risadas, os gritos, a chuva. Prata. Segundo lugar. Prata.
Pecava e sabia que pecava. Só queria deixar de ser um exército de prata.
O cheiro de final de estação, a fumaça, os gritos.
Um exército de prata comprimido na íris da menina.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Broken Angel


Planava no céu. Iluminava a noite. Passava como uma estrela cadente em meio a escuridão. Sorria para quem a admirava da Terra. Voava, e enquanto voava o vento cortava seu rosto e a adrenalina corria em suas veias. E quando se estendia no céu negro, refletia na lua o colorido do mais belo par de asas que qualquer um já havia visto.
A noite escureceu e as primeiras gotas começaram a cair do céu. Molharam suas asas, seu rosto, o castanho de seus cabelos.
Tropeçou em seus medos, e então, caiu. Foi puxada por uma força que desconhecia. Cruzou o céu em poucos instantes, e, enquanto despencava, quebrou suas asas. Um anjo quebrado atravessava o espaço. Deixava rastros de cores na imensidão negra do céu.
Atravessou a barreira da terra e confortou-se em um buraco escuro. Mesmo quebradas, suas asas atentavam a visão de muitos que passavam pela anja. E na solidão, o brilho de sua asa foi se convertendo em alma. E ganhou brilho os olhos, e ganhou brilho a mente, ao coração.
Perdeu o brilho das asas.
E o tempo passou, e não lhe chamaram mais. E não lhe deram apoio. E lhe deixaram abandonada a própria sorte.
Cresceu-lhe a alma, a bondade.
E um dia lhe foi estendida uma mão. Viram as cores em seus olhos e então, lhe estenderam a mão. Tiraram daquele negro buraco construído por ela mesma. Colocou-se de pé, depois de tanto tempo. Uma mão desconhecida lhe foi estendida, e ali se pois, de pé.
Converteu em alma o que eram suas asas.
Viveu como o mais belo dos anjos, um anjo sem rumo e sem asas.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Liberdade


Minha mãe sempre me disse que, quando eu e o meu irmão éramos pequenos e saíamos para passar uma noitada com os amigos, ela não entrava no nosso quarto. Ela dizia que não imaginava dor maior do que arrumar o quarto de um filho que já morreu. Que a nossa ausência a perturbava. Mesmo que isso não fosse preocupá-la a essa altura do campeonato, passei a tarde inteira tirando a tralha toda do meu quarto.
Joguei tudo fora, me livrei de tudo. Não quis que ninguém usasse aquele lixo de novo. Assim como meu corpo, as minhas lembranças morreriam naquele dia.
Senti as mãos ossudas de minha loucura envolverem meu pescoço, uma corda de ressentimentos me apertaram a alma, selando-se em um nó posicionado do lado esquerdo de meu pescoço.
Houvera muito tempo para que eu pensasse em quais palavras diria antes de morrer.
Ao vão de quatro paredes apenas o pulsar inquieto de meu coração era ouvido.
Subi em um banco de madeira, e na extremidade da corda contraria à amarrada no meu pescoço, dei um nó cego em uma estrutura metálica no teto. A resistência da estrutura já havia sido devidamente averiguada. Treinei a porra do nó por semanas.
Fechei os olhos, e então, pulei. Senti-me faltar o ar. Expirei cada problema e deixei que um clarão de possibilidades tomasse minha mente.
Ouvia a risada doce de minha falsidade sussurrada ao pé do meu ouvido.
Chacoalhei meu corpo na vã tentativa de afastá-la. Continuei sentindo sua respiração no meu cangote.
Lembrei das últimas palavras. Tanto tempo programando um discurso para mim mesmo. Faltou-me a memória; faltou-me a voz para gritar. Faltou-me o ar. Simplesmente abri a boca e deixei que as palavras se jogassem. Pude vê-las planarem no ar alguns instantes antes de se rebentarem no chão frio de concreto. Podia ver um filete de sangue escorrer das minhas palavras. Ficaram ali, estiradas. E eu fiquei a lhes observar. O tempo parecia ter parado naqueles instantes de falta de ar. Sentia dor.
Senti o corpo pesado de minha insegurança esmagar minhas víceras, tive o rosto espancado pelas minhas mentiras. A desilusão dilacerava minha alma.
É só que eu precisava de uma vitória depois de tantas derrotas. E para mim, finalmente escolher o meu destino era uma vitória. Perder minhas certezas era uma derrota. Perder minhas esperanças era uma derrota. Irônico pensar que para mim perder a minha vida seria uma vitória. Na verdade, perder meu corpo. Havia tempo que eu não estava vivo.
Faltou-me o ar, e eu estava ofegante. Sentia dor. Tive meus olhos abertos pelo meu orgulho. E foi então que eu vi. Vi a liberdade. E ela sorriu para mim. Fechei os olhos novamente.
Foi como adormecer. Sem dor, sem drama.
Sem sonhos. Sem saídas.
Preso e perdido no meu subconciente.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Olhos de Prata


Toquei sua pele fria. Corri com meus dedos sobre sua face. Repousei meu rosto sobre seu peito. Não ouvi pulsar de coração algum. Deixei que corressem as primeiras lágrimas de meus olhos. Gritei meu pranto engalfinhada no conforto do seu corpo. Mergulhei minhas mãos em seus cabelos e a chuva começava a cair sobre minhas costas. Deixei que minhas lágrimas se dissolvessem na água e fechei teus olhos. Você tinha olhos de prata, não olhos de morte. Quis abri-los novamente. Quis sentir o sangue correndo em tuas veias. Desejei ser beijada. Nas mãos, na face, nos lábios. Quis sentir teu toque.
Meu coração se comprimiu em agonia. Te abraçava em eternos segundos de desespero e uma tempestade de sentimentos molhava nossos corpos.
Olhos nos olhos, mesmo estando fechados. Os seus prateados de morte, os meus marejados de dor.
Vejo teu sorriso de lua minguante nas noites escuras e vejo teus olhos de mar prateado a me observar. Mas não sinto mais seu toque. Não me vejo flutuar em alegria ao sentir tuas mãos nas minhas.
No concreto da calçada deixei que escorresse nas minhas lágrimas os meus sorrisos sinceros.
Sussurrei 'adeus' ao pé do teu ouvido e deixei-te partir com os olhos embaçados de cimento e dor.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Corda-bamba de corpos

As palavras se estiravam como corpos sobre um papel, deixando que o menino caminhasse sobre elas.
Ele distribuía as frases e compunha histórias em uma corda-bamba de pensamentos.
O moleque caminhava sobre uma corda-bamba de corpos em direção ao amanhecer.
Caminhava descalço e sentia seus pés esmagarem cada rosto, cada coração, cada vida. Se equilibrava com os braços.
Cheiro de hálito noturno, suor, dor e morte invadiram sua mente.
O céu prateado o fazia lembrar que se caísse, não só estaria morto como completamente sozinho.
Sozinho.
Isso doía nele muito mais do que qualquer queda e do que qualquer anseio.
Era esse sentimento de abandono que corria em cada veia do seu corpo ossudo.
O céu estava prateado e refletia o brilho triste do sol que pouco nascera.
Sozinho.