terça-feira, 5 de julho de 2011

A Última Folha do Outono


A última folha do outono se prendia ao mais alto dos galhos como se não soubesse que uma hora teria que partir. O mundo girava firme como os ponteiros de um relógio, mas a folha seguia seu próprio tempo... E ela sorria para o inverno que a pouco chegara... Ela não queria ir embora. Ah, jamais iria. Ela se prenderia na mais bela das árvores e lá permaneceria para sempre.
Mas o mundo girava firme e o tempo da folha não importava.
Uma folha de outono não pertence ao inverno. Mas porque aquela folha, e só aquela, não podia ficar lá para sempre? Se chovesse ela dançaria nas gotas e se fizesse sol ela esquentaria-se em seus raios. Mas o mundo não deixava. Ah, por que o mundo tinha que girar tão firme, tão forte, tão inflexível ao tempo próprio das folhas de outono..?
Pois eis que um dia, houve de pousar na beirada da folha, uma borboleta de céu com a asa quebrada. A folha de outono fez-se aguentar firme pois sabia que a borboleta também estava vivendo em um tempo que não era dela. A folha de outono sabia que Deus jamais lhe daria peso que ela não podesse aguentar. E aguentou. Aguentou sorrindo o que muitos não aguentam chorando.
E quando a borboleta de céu fez-se inteira, abriu em estrelas para a folha fraca que lhe fitava com um sorriso. E a borboleta puxou o único filete de força que mantinha a folha de outono presa a árvore.
Com uma lágrima, a folha perguntou a borboleta porque ela havia de ter feito isso com ela.
E a borboleta, então, sussurrou-lhe ao pé do ouvido que as folhas de outono um dia hão de secar e cair ao chão, mas que por ter aguentado sorrindo, viraria uma estrela. As estrelas não caem, as estrelas não morrem. As estrelas brilham o ano inteiro, todo ano.
E viveu como uma estrela pois não fora destinada a ser folha. Viveu o ano inteiro pois jamais se limitaria a uma estação.
Viveu como estrela.

sábado, 25 de junho de 2011

Estante

As mãos alvas e ossudas envolviam o gargalo da garrafa como se pertencessem ao seu corpo.
Sua boca salivava e seus lábios de sangue lembravam do gosto que tinha o céu. O céu estava dentro de uma garrafa, ali, plantada firme como um salgueiro em frente ao corpo esguio da menina.
E ela almejava um único gole... Ah, se pudesse apenas sentir seu cheiro... Mas ela sabia que um gole nunca lhe bastava; mas ah... ela queria apenas uma gota... Mas uma gota não lhe bastava... Mas se ela pudesse tomar apenas um gole.
Mas ela resistia. Ah, ela guardaria a garrafa na estante; ah, ela deixaria que juntasse poeira...
Mas quando seus lábios provavam um gole do céu sua pele alva ganhava todas as cores do mundo... Ah, seu corpo ganhava vida, sua alma voava.
Mas ah... quando o céu descobria que haviam bebido um pouco dele, o corpo do pecador queimava de dentro para fora.
Ah, ela sabia o quanto o fogo ardia... Mas ah... o céu lhe enchia de cores.
Ah, ela jogaria a garrafa no mar... Deixaria o céu a deriva...
Ah, ficaria guardada em uma garrafa, ao lado do céu, em uma estante empoeirada e esquecida.
Ah... se esqueceria em uma estante.

sábado, 11 de junho de 2011

E se só restasse uma hora? O que você faria?

Everybody needs inspiration, my dear.

Você nunca está completamente bem. As coisas que você ama costumam se destacar, mas não se decepcione e não prometa nada, nunca. Se esqueça de voltar para a realidade... No começo, você simplesmente não vai entender, depois, não aceitar. Eu a lembrarei a todo instante que tiver esquecido... Para onde eu irei quando minha memória me trair?
As situações nos obrigam a escolher constantemente, isso é a vida exigindo de mim, de nós. Nem todos sonham em ser revolucionários, nem todos são rebeldes sem causa, mas todos que passarem por você vão deixar uma marca, seja ela boa ou ruim. Da noite para o dia.
Não chore, que não vale a pena. Mas se chorar também me chama, e tenha a certeza de um abraço que seja de um ombro amigo, não prometo te dar o melhor conselho, e nem te fazer a pessoa mais feliz do mundo, mas sempre vou fazer o possível, e até o impossível pra te ver sorrir. Sou eu quem sempre estará ao seu lado, esperando pela sua aprovação para rir. São as imperfeições que nos divertem.
Sinto falta de algo que nunca tive, sonho com coisas que nunca acontecerão. E talvez, tudo que eu precise, seja de um momento de ser o que é. Chamei por todos e só você veio. Me contou seus segredos, conheceu as minhas manias, me protegeu de meus medos.
Hoje acordei de manhã e só consegui pensar em uma coisa impossível: te esquecer.. Ei, você me influencia, eu sou totalmente dependente de você. Eu não queria tantas responsabilidades, tantas dificuldades, eu nunca pedi isso para ninguém, mas são pensamentos de um quase adulto contra os de uma simples criança.
É do jeito que é: uma loucura interior, que vai ser enquanto a vida permitir.
E se nós não podemos voltar no tempo e nem reviver momentos, por que não criamos novas lembranças? Eu sempre soube que esse momento chegaria, só não sabia que seria tão rápido. Afinal, é o que já aconteceu com você, que te fez o que você é, certo? Até quando não percebeu, seus erros te tornaram real, seus medos te tornaram humano.
A felicidade alheia me alegra, mas hoje eu tenho uma má notícia. O amor não pode salvar vidas, não sempre, não hoje.
Os olhares desiludidos pelas mágoas da vida machucam tanto quanto os outros. Os sentimentos ficam em forma de lágrima. Aquela única gota que deslizava pelo rosto triste, levava tudo aquilo que os ombros já não conseguiam carregar. Todos os choros que havia guardado, todos os abraços que já havia sentido falta. Não era o tempo e não era a distância que teríamos que enfrentar no futuro.. Era apenas certeza daquele abraço, daqueles instantes de segurança.
Instantes de segurança que morrendo dentro de mim, viviam com você. Vivendo a vida que eu achei que viveria, que eu achei que merecia.
Minha alma estava murcha, mas os galhos, mais coloridos. Queria um dia em que o que eu fizesse, não importasse no dia seguinte. Eu tenho muitas dúvidas sobre o mundo como ele é, e sobre as pessoas como elas são, pois aos que prezam por ter uma ideologia, uma identidade própria e personalidade, só resta viver dos resquícios de identidades passadas.
Raiva de mim que não tem ideia do que fazer a respeito.
Sinto inspiração por aqueles que já temeram, que já riram, que já cronometraram os segundos antes de mais um pedaço dessa história, mas eu já não tenho mais disposição para procurar por aqueles pelos quais vale apena ser o meu melhor.
E quando até o mais corajoso dos heróis se deu por vencido? É, triste pensar que mesmo que eu soubesse, não poderia ter mudado nada. É só que as vezes, ainda sinto isso em mim. A verdade é que eu quero os vícios e não as virtudes, quero os altos e baixos, quero as loucuras, quero os erros. Os nossos.
Olhos nos olhos, mesmo estando fechados. Os seus prateados de morte, os meus marejados de dor. Vi a liberdade. E ela sorriu para mim. Fechei os olhos novamente. Foi como adormecer. Sem dor, sem drama. Sem sonhos. Sem saídas. Preso e perdido no meu subconsciente.
Lá, um anjo quebrado atravessava o espaço. Deixava rastros de cores na imensidão negra do céu. Viveu como o mais belo dos anjos, um anjo sem rumo e sem asas. Bom voo, mas nunca o bastante. Havia prata comprimido na íris desse anjo. Eu me perdi tentando encontrá-lo. Me perdi nesses olhos de labirintos de espelhos. Um mais de céu, e um fixo na terra, seus olhos viajavam sem saír do lugar, sonhavam mesmo estando abertos.
Deixou seu corpo voar. Hora ferro, hora flor. Bateu suas asas sujas de sangue com a maior liberdade que o mundo já havia lhe dado... Planou no céu como uma borboleta feita de sangue, de espelhos, de suor e de lágrimas. O céu lhe sorriu ensolarado, porque, meu bem, eram tempos de borboletas...
Mas agora eu posso ver que o que eu escrevo mudou tudo. Mudou o meu tudo.
O anjo agora caminha sobre uma corda-bamba em direção ao amanhecer. O céu prateado lembrando que se caísse, não só estaria vivo, como completamente sozinho. Sozinho, valsando uma dança não ensaiada, se refugiando nos braços inexistentes de um parceiro... Valsando uma música nunca ouvida antes.

Neverland, 11 de Junho de 2011.


A cima, a homenagem mais bela, mais simples, mais querida e carinhosa que eu poderia esperar depois de um ano de blog... Você roubou as palavras de mim, me restou só um 'obrigada'.
Obrigada, Luísa Helena (que pode se considerar tão dona do meu blog quanto eu), por acreditar em mim quando nem eu acredito.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Tempos de Borboletas

Fechou os olhos e estufou o peito. Deu o primeiro passo naquele labirinto e as portas se fecharam às suas costas. Se viu estampada em um espelho. Não se reconhecia mais. Seu reflexo não correspondia a realidade. Quando seus olhos de céu ficaram nublados? Quando seus cabelos de ouro perderam o brilho? Quem tirou-lhe o sorriso do rosto?
Forçou-se a sorrir. Não ganhou beleza seu reflexo. Seu sorriso pré-fabricado não valia mais. Um par de olheiras circundavam seus olhos de nuvem e uma gota de chuva escorrereu daquele céu triste. Correu-lhe pelo rosto lágrimas laminadas. Por que ninguém enxugava suas lágrimas?
O choro virou chuva e a garoa se transformou em tempestade. Mais do que a chuva, o mundo caia sobre os seus ombros naquele momento.
Paredes de espelhos prendiam-lhe em um labirinto.
Seu corpo estava preso em um labirinto de espelhos que a sua alma havia construído. Correntes lhe prendiam no chão. Seus punhos cerrados e seus dedos ossudos apertavam-se com uma força que doía no coração.
Tinha seu coração na palma das mãos e apertava-lhe, espremendo todos os sentimentos surtes que seu sangue guardava.
As paredes espelhadas escorriam em sangue, chuva e lágrimas.
Puxou as correntes. Sua força não era o bastante. Forçava seu corpo, mas as correntes lhe prendiam. O sangue escorria de seus punhos cerrados.
Fechou os olhos, fez da dor conforto, deixou que o vento secasse suas lágrimas.
Quebrou as correntes.
Correu sua liberdade pelas paredes de um labirinto.
Perdeu-se no seu reflexo de perfeição, no seu corpo magro, no reflexo dos seus olhos de céu nublado, de olhos que chovem. Perdeu-se no sangue e na chuva... Perdeu-se no choro e no suor...
Tropeçou nas suas inseguranças. Gritou no silêncio solitário de seus medos. Caligrafou com sangue nas paredes da sua prisão...
O céu chuvoso assusta quando se está sozinho... Por que ninguém lhe convidava para dançar? Queria dançar na chuva, mas não lhe pediam uma dança... Não lhe sussurravam uma melodia ao pé do ouvido para que valsassem.
Um céu de sorrisos é tão mais belo... Por que o céu não sorria mais para ela? Sua alma doía, e ela preferia que seu corpo doesse... Se pode estancar um sangramento quando isso vem de fora, mas e quando é a sua alma que sangra? Por que não lhe massageavam a alma? Sua alma chorava e escorriam suas palavras de sangue pelas paredes do labirinto.
Mas a dor não lhe confortava mais... Quis livrar-se do sangue, das lágrimas... Quis transformar o barulho da chuva em melodia, e dançaria sozinha... Desejou transformar o labirinto em passado.
Tentou em vão subir pelas paredes espelhadas da sua mente, mas seu esforço não era o bastante. Sangue, suor e lágrimas pingavam e castigavam o chão...
Deitou no chão gelado da sua silenciosa solidão. Teve sonhos tão belos... Desejou não acordar, mas o destino lhe traiu de novo.
Não abriu os olhos pois não queria se ver refletida nunca mais. Em um labirinto onde todos os seus obstáculos eram ela mesma, ela decidiu deixar-se guiar pelo seu corpo... Seguiu o cheiro das flores, o cheiro de mar... Ouviu a melodia doce de uma música nunca ouvida antes...
Apertou os olhos, e então, pulou.
Deixou seu corpo voar. Hora ferro, hora flor. Bateu suas asas de sangue com a maior liberdade que o mundo já havia lhe dado...
Planou no céu como uma borboleta de sangue, de espelhos, de suor e de lágrimas.
O céu lhe sorriu ensolarado, porque meu bem...
São tempos de borboletas.

domingo, 8 de maio de 2011

Um castanho, um azul


Seus olhos sorriam. Um castanho, um azul. No silêncio de um abraço chorado, de carinhos no cabelo. Seus dedos reprimiam minhas lágrimas. Eu encarava seus olhos. Um castanho, um azul.
Um sem rota, o outro o guiava. Um de céu, um fixo na terra. Seus olhos viajavam sem saír do lugar, sonhavam mesmo estando abertos.
Seus olhos me confortavam. Continham meu choro; seus olhos me abraçavam. Um castanho, um azul.
Seus olhos contaram a sua história. Nunca feche esse livro. Nunca feche seus olhos. Que histórias vão me fazer dormir quando os seus olhos se fecharem?
Não feche os olhos. Deixe que eles contem as suas histórias.
Seus olhos sorriam. Um castanho, um azul.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Felicidade Extraviada


Naqueles instantes de menta, de mente, de lábios selados, mentiras mal feitas, amores mal contados...
Amigos esquecidos, lábios selados.
Naqueles instantes de felicidade extraviada, deixada como um pacote inesperado na porta de casa.
Os lábios valsando uma dança não ensaiada, se refugiando nos braços inexperientes do parceiro... Valsando uma música nunca ouvida antes.
Olhos fechados, braços dados, valsando nos cabelos cacheados, encaracolados em um labirinto, perdidos, valsando, dançando, pedindo, implorando por uma saída.
Valsando nos caracóis do seu cabelo. Em uma estrada infinita... As mãos mergulhadas nos seus cachos.
Uma lágrima de amor no canto do rosto. Um amor de instantes, de lábios que valsam, que dançam, que se perdem nos seus cabelos.
Um instante de felicidade extraviada...

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Labirinto de Espelhos


Nos teus olhos de labirintos de espelhos eu me perdi, e nos reflexos da tua alma eu vi a beleza dos teus pensamentos.
E eu vi o reflexo de teus prantos, de tuas dúvidas, das tuas paixões. Das tuas lágrimas prateadas.
Os teus olhos são de labirintos de espelhos, e por isso a facilidade de se perder neles. Fui de encontro a tua alma e me perdi nos teus olhos. Na floresta densa que se comprime na tua íris, eu me perdi tentando te encontrar; adentrei em uma aventura sem rumo e sem rota. Me confortei nos seus olhos cansados, corri pela floresta da tua íris.
Me perdi nos teus olhos de labirintos de espelhos.